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Diálogo
possível
Em Entrevista: o diálogo possível, a estudiosa Cremilda Medina defende que a entrevista jornalística deve se esforçar para alcançar a fluidez do diálogo, esse jogo de interação humana criadora onde no decorrer da conversa ambos os "jogadores" se revelam, se modificam e crescem no conhecimento do mundo e deles próprios. Um aspecto particularmente importante de sua argumentação é a idéia de que a personalidade do entrevistador também deve atuar no desempenho da entrevista. Apesar de ser uma constatação aparentemente óbvia, essa admissão da presença do entrevistador coloca-se na contramão da crença na imparcialidade e objetividade do profissional repórter. Os manuais de redação pregam que o jornalista deve ser neutro para fazer um papel de funcionário invisível e deixar emergir o discurso puro do entrevistado. No entanto, sabemos que essa neutralidade é impossível. Não obstante há muitas estratégias discursivas altamente sutis e largamente utilizadas por entrevistadores ditos "imparciais e objetivos" para fazer com que o entrevistado "entre no jogo" e escorregue nas "perguntas casca de banana" feitas não para buscar a compreensão, mas para constranger através do ridículo, do espetáculo ou mesmo da má fé. Assim, Medina sugere a substituição da agressividade, da imposição e do autoritarismo pela busca da confiança recíproca para promover um verdadeiro diálogo. Será possível fazer um jornalismo assim sem ser ingênuo? Será possível ser crítico e dialógico ao mesmo tempo? Queremos acreditar que sim. Esta idéia foi experimentalmente aplicada no diálogo realizado com o escritor Affonso Romano de SantAnna, publicado nesta edição do Revelação. O estudante construiu a introdução em primeira pessoa, revelando os livros que teve de ler na preparação da entrevista. No decorrer do diálogo, procurou entrecruzar na fala do entrevistado as suas próprias observações para travar uma conversa verdadeira com o escritor. Este experimento não é livre de riscos. Propor que o próprio entrevistado se coloque tão atrevidamente em uma entrevista é caminhar na corda bamba entre o diálogo e o narcisismo que ocorre quando o entrevistado quer aparecer mais que o entrevistador, como aconcece rotineiramente nos talk shows de celebridades na TV. No entanto, buscar a dose certa de intervenções dialógicas parece ser um desafio estimulante na comunicação social. A propósito, o filósofo Gérard Lebrun defende que a entrevista, quando bem conduzida, oferece um suporte perfeitamente habilidoso para que o repórter possa fazer uma "crítica literária dialogada" com o próprio escritor. A estratégia discursiva do texto da entrevista foi orientada neste sentido. Acreditamos que é possível experimentar para que o jornalismo fique cada vez mais vivo, caloroso, humano e intelectualmente honesto. |