A vida continua

Estudante de odontologia expõe as forças e as inquietações de uma paciente de câncer

Joyce Pereira Ramos
6¼ Período de Jornalismo


Quem a vê, logo percebe que sofre de algum mal. Sua aparência magra, seus cabelos curtinhos, suas olheiras e seu olhar amarelo alertam nossa sensibilidade. Mas isso não impede que seu olhar brilhe e, mesmo usando uma máscara para não pegar infeções, percebe-se em seu rosto o sorriso e vontade de viver.


As pessoas adultas normalmente lembram-se com saudosismo da própria infância e da adolescência; mas isso não acontece com J.F.R. (ela preferiu não se identificar). A estudante resume essa etapa da vida em poucas palavras "Eu era imatura e dava valor à coisas como aparência, preconceito e ilusão."


As pessoas jamais imaginam que esse mal possa acontecer com alguém da família, ou com elas mesmas. Mas a doença é real e normalmente começa de forma muito sutil. Assim aconteceu com J.F.R. Há 11 anos ela sentiu mal-estar e foi logo ao médico. Imediatamente teve que se submeter a alguns exames e foi constatado um tumor no ovário. Recebeu a notícia que teria que passar por cirurgias para retirada do tumor e dos ovários. Ficou sobressaltada. Tumor no ovário! Deixou o consultório extremamente abatida. Como ia dar essa notícia aos amigos e familiares? Como eles iam reagir?


Com desânimo e tristeza J.F.R. foi para casa dar a notícia a todos. Com toda sua preocupação e medo ela teve uma grande surpresa: recebeu todo apoio, carinho, dedicação, amor e união dos familiares e dos amigos verdadeiros.


"Me orgulho muito da maneira que meus pais me criaram, dos valores que me ensinaram, da religião que me levaram a conhecer e da fé que me dá vontade de viver." Com tudo isso aprendeu a crescer como pessoa e mulher.


Durante um ano e meio ficou de repouso absoluto. Foi feito todo o tratamento possível: quimioterapia, radioterapia, acompanhamento médico e exames periódicos. Isso tudo foi desgastante e nem por isso ela teve algum preconceito ou medo de perder os cabelos e emagrecer.


Quando se tem fé, a dor, o sofrimento e a perda se tornam apenas obstáculos que podem ser amenizados ou até mesmo vencidos quando se mantém a paz interior. Ela acredita que pessoas preconceituosas são aquelas que ainda não compreenderam o sentido da vida. Por isso são vazias, sem amor no coração. Ela não sofre com nenhum preconceito porque não alimenta nenhum, seja ele qual for. "Preconceito mata, e eu sou muito feliz por estar viva."


Depois de algum tempo os médicos constataram que com o tratamento e a retirada do tumor a doença tinha sido controlada. Então J.F.R. retomou a vida e prestou vestibular para o curso que tanto queria. Passou e começou a cursar Odontologia. O sonho de viver em paz, de ter harmonia e amor no coração estava começando.


Com um jeitinho todo especial de comunicar e demonstrar o seu sentimento, aprendeu que com gestos simples podemos transformar a dor e o desamor em afeto e alegria, podemos partilhar a vida com um olhar acolhedor ou um abraço. Ela sempre gostou de falar o que sentia, hoje expressa os sentimentos em forma de carinho, um beijo, um abraço, um toque especial e um olhar acolhedor. Viver para ela é uma dádiva de Deus. Adora conversar sobre tudo um pouco. Alguns amigos dizem que ela é especial e super amiga, dá conselhos e fala sem ressentimento sobre a vida e o câncer.

Recaída

No final de agosto de 2001 J.F.R. teve outra recaída. Começou a sentir mal-estar novamente, febre diariamente no mesmo horário, náuseas e tosses com expectoração de sangue, nódulos na garganta e vários outros sintomas. Voltou ao médico preocupada no que poderia ser.

Fez outra vez alguns exames e obteve a resposta: câncer nos pulmões e na garganta. Infelizmente não poderia fazer outra cirurgia, pois o local é muito sensível e poderia agravar ainda mais.


Deu a notícia aos seus pais que não deixaram de apoiar a filha novamente. Em setembro começou os tratamentos. Estava cansada, mas lutando para conseguir superar mais uma vez esta notícia horrível. Com todas as medicações e os tratamentos obrigatórios, teve que abandonar o curso de Odontologia e voltar para sua cidade natal.


Em novembro de 2001 seu pai estava passeando de bicicleta, foi vítima em um acidente de trânsito e sofreu politraumatismo craniano. Não resistindo aos ferimentos, faleceu. Mais uma dor grande para ela e toda a família, ficando ainda mais difícil para sua mãe assimilar a sua doença e a morte de seu pai.


Em junho de 2003 fez alguns exames e notou que os tumores haviam parado de crescer. Com esse resultado J.F.R. pediu aos médicos para mudar o tipo de tratamento. Para eles não seria a hora adequada de mudá-lo, mas ela precisava se colocar de pé novamente e só assim teria chances para voltar a sua vida e aos seus estudos. As expectativas para o tratamento poderiam ser melhores, mas ela queria seguir uma opção própria.


A vida nos apresenta momentos e situações complicadas. Ela diz que às vezes tem sentimentos de dor, perda, angústia, solidão e tristeza. Mas lembra que tem família e amigos maravilhosos a quem pode contar.


Ter amigos sempre é bom. É fundamental ter alguém por quem se tem amor através de gestos gratuitos, alegres e afetivos. No caso de J.F.R. os amigos verdadeiros não a abandonaram, estão solidários desde o começo da doença, mesmo sabendo que a enfermidade deixa as pessoas sensíveis, carentes e depressivas. Em alguns momentos a paciente precisa ficar isolada de tudo. Outros amigos distanciaram, ela acha que pode ser por medo, cansaço, desânimo ou mesmo por não acreditar mais na recuperação. Mas ela tem maior carinho, respeito e compreensão por todos amigos.


Ela não vê o câncer como um obstáculo em sua vida. É apenas uma doença. "Estou doente, mas não sou doente". É inacreditável a vontade e o sonho de poder ficar curada e de terminar o curso de Odontologia que tanta ama.


A vontade de viver em paz, a alegria e o amor no coração são enormes, mas J.F.R. sabe os riscos que a doença lhe traz. Sonha em deixar para as pessoas o seu sentimento profundo de carinho, coragem e fé. Hoje seu tratamento está regredindo e já se observa metástase (tumor nos ossos) em outros órgãos, além de infeções, mas ela tem consciência dos riscos. Faz quiometerapia três vezes por semana.


Concluir o curso de Odontologia para ela é um dos seus maiores objetivos. O que mais gosta no curso é saber que vai poder aliviar dores, deixar uma pessoa esteticamente, humanamente e moralmente melhor, mais bonita. Quando escolheu fazer o curso de Odontologia ela não pensou em status social, e sim por gostar e ter um emprego. "Toda profissão é digna desde que seja honesta. Faço o curso que amo, amo o curso que faço."


Ela comenta dos professores com carinho, respeito e admiração. A ajuda que teve desde o começo do curso. Apesar das dificuldades está feliz por estar de volta a uma das coisas que traz alegria, feliz ainda mais se conseguir concluir.