$ 3 contos

Rerprodução
Francisco Marcos Reis é jornalista e professor da Uniube

Sobre a mesa os papéis se entrelaçam numa criativa bagunça, iluminada pelo relance do facho de luz que vaza incontinente no vidro superior da vidraça da janela colonial pintada de azul marinho. Estamos no sertão, a lembrança do mar é a traição ilusória imposta pela cor. Amarelecidos e empilhados numa desordem de importância, a hierarquia conjuga formas meio arquitetônicas, anarquistas... O homem não se importar com aquilo; comporta-se com indiferença, num mundo onde a organização é quesito para a felicidade. É um terrorista...

***

Com mais de 60 anos, não aceita a idéia de privilégio na fila. Teimoso recusa a recomendação do guarda para escolher a menor onde cabeças branca ou pintadas de acaju se enfileram. No último lugar conversa com o penúltimo e depois com o ultimo que chega logo depois, sobre futebol, política brasileira e por fim sobre a própria fila. Do colega de infortúnio ouve a mesma recomendação para se mudar de fila. Recusa mais uma vez, só que desta, discursa sobre o odioso privilégio da aristocracia, sobre o sistema bancário, sobre o capitalismo, o abandono dos idosos e etc. É um subversivo...

***

O banco enviou três avisos; a senha está no balcão com a atendente de nome Norma. O telefone toca de manhã; é Norma ligando avisando sobre a senha e aproveitando a ligação para falar dos bons serviços. O homem ouve com indiferença e agradece atenção e o telefonema. "Não é nada, nossa organização faz questão de tê-lo como cliente". O aparelho é acomodado no suporte, esquece... Segundos depois, Norma volta-se para o balcão e repete o mesmo refrão para o homem que posta orgulhoso para receber sua senha. Ele pensa: serei feliz... É um conformado...