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Painel do Leitor Especial Na edição nº 281 do Revelação foi publicado o texto "Marcas da Ruína", de estudante de Jornalismo Luiz Flávio Assis Moura, onde foram registradas impressões pessoais sobre o relato do sociólogo Ricardo Prata no debate realizado na Uniube sobre 40 anos do regime militar. Madalena Prata, Padre Thomaz de Aquino Prata, Orlando Pereira Coelho Filho e Andréa Queiroz Fabri sentiram necessidade de se manifestar e enviaram os seguintes artigos ao Revelação: Imagem: memória de vida Madalena Prata Há trinta anos atrás, em algum dia do mês de março ou abril, eu saí do DOI-CODI-SP. Recordo-me que meu sogro tinha ido me buscar e levou-me para sua casa em Belo Horizonte. A primeira pessoa que eu vi me esperando foi meu irmão, Ricardo Prata. Ele tinha saído há pouco tempo de prisão e a gente não se via a mais de quatro anos. Com um abraço carinhoso, amigo, fraterno, solidário ele levou-me até um berço: " Olhe para seu filho! E você saberá porque vale a pena viver." Nesses 30 anos, Ricardo tornou-se minha referência. Se quero saber como de fato uma história política ocorreu, ele sabe me explicar. Se preciso entender este emaranhado de partidos políticos, das alianças políticas, é ele que me esclarece. Se a economia vai mal, se há guerras estourando pelo mundo é nele que eu busco as respostas. E se estou triste ou alegre é para ele que conto primeiro. Porque ele não é só uma referência pessoal para mim. Eu me vejo nele. Não sei quais as torturas que ele sofreu e nem ele sabe as minhas. Talvez, ao sair das prisões ficamos com um grito preso na garganta e algumas lágrimas em um canto do olho. E assim, temos o coração cheio de segredos e a alma repleta de saudades. Aprendemos a "engolir" sapos, a ouvir contar episódios de que participamos sem fazer reparos nos relatos. Aprendemos que o que importa é somente o essencial. Mas sei e sei que Ricardo sabe que o melhor que aprendemos ao viver a militância e a repressão política foi e é: sobreviver com dignidade, ser solidários e saber que não somos heróis. Só fizemos uma escolha ao abraçarmos um sonho, um ideal de vida quando tínhamos pouco mais, pouco menos que 20 anos de idade. A grande maioria, dos que foram militantes continua a lutar dentro de suas possibilidades e limites por uma série de ideais. Os mesmos que um dia também nos levaram a viver a repressão política. Ricardo Prata, faz parte dessa maioria. Aos responsáveis pelo jornal "Revelação" Padre Thomaz de Aquino Prata Creio que deveria ser umas das características principais de um jornalista o respeito pela pessoa humana, pela dignidade do ser humano. É repugnante a intenção de fazer literatura em cima do sofrimento dos outros. O que escreveram sobre o professor Ricardo Prata Soares, além de ser uma inverdade e uma injustiça, é uma agressão deprimente que não recomenda o autor do artigo e os responsáveis pelo jornal. Das trevas da inferência à luz da boa prata Orlando Pereira Coelho Filho A criatura mitológica que emerge do texto metafórico do aluno do quarto ano do curso de jornalismo e publicidade da UNIUBE é o mais emblemático exemplo do jornalismo de ficção (opa! jornalismo de ficção!?). Através de imagens fortes, por vezes "poéticas", o aluno em questão tenta descrever o que teria se tornado o professor Ricardo Prata, uma das vítimas das torturas e dos cárceres da ditadura militar. O curioso é que no esforço de traçar um perfil psicológico, o jovem articulista acaba por criar uma imagem assustadora, apocalíptica, meio barroca, do professor Ricardo Prata, e ao assim proceder, acaba operando um deslocamento gravíssimo, pois o citado professor, por vezes, sai do lugar de vítima e passa a ocupar o lugar de réu. Sutilmente, o leitor é levado a concluir que o renomado professor tornou-se uma espécie de cúmplice masoquista do seu sofrimento, do que passou, do que teve de enfrentar, do que de fato superou. A violenta inversão visa somente degradar a figura, a imagem, aliás, o artigo é só imagem, a descrição de uma imagem. Projeção, transferência, inferências ab-surdas, obs-cenas (fora da cena,) permeiam o texto na qual o homem real em sua verdadeira historicidade ficou relegado, escamoteado. Aliás, em uma sociedade em que tudo é "tipo", "tipo isso", "tipo aquilo", em uma sociedade na qual o mais importante é parecer ser e não de fato ser, onde o fundamental é o simulacro, o espetáculo das imagens, a caracterização imagética, nada restaria a mais a dizer sobre o citado artigo. Entretanto, por uma questão de justiça e de respeito, com quem, na verdade, tem prestado ao longo de sua vida, com sua história, uma inestimável contribuição ao saber, ao conhecimento e a educação, ouso prolongar o texto. O professor, ainda que venha a desdenhar sua experiência ou aparentemente renegar o que sofreu ou enfrentou, merece o nosso maior apreço, a nossa maior consideração, não apenas pelos enfrentamentos que assumiu em sua vida, em sua luta por liberdade e justiça, mas por ter se tornado um exemplo vivo de superação, sem rancores, apenas com a transparente compreensão de quem fez e ainda faz a história de nosso tempo. Pena que o jovem estudante só viu aquilo que quis ver (assim é se lhe parece?), optando pelas trevas da inferência, arrastado por elas, não pode abrir-se à luz que se irradia de toda boa "Prata" (perdoem-me o trocadilho). Prof. de sociologia e Coordenador do Curso de Ciência Sociais - FEU / Prof. de filosofia e antropologia da Unipac - São Judas Caros coordenadores, editores e colaboradores do Revelação Andréa Queiroz Fabri É com muita alegria que venho parabenizá-los pelo excelente trabalho que vocês têm feito. Sobre isto escrevi algumas palavras (anexo), pois acredito que o elogio nos serve de incentivo para sermos cada vez melhores. Esperança para caminhar Em meio a tantos atropelos vividos pela sociedade brasileira e internacional, é raro encontrar bons motivos para buscar novas notícias. Violência e intolerância têm formado uma barreira para a discussão democrática com fins de alcançar soluções legitimadas para os constantes problemas que, normalmente, atingem as comunidades complexas. Tudo isso vem servindo como desestímulo à pesquisa, ao estudo, posto que parece ter se estabelecido no pensamento coletivo que qualquer "luta" é demagógica. Eis uma das conseqüências repreensíveis da ideologia imediatista e de resultados porosos do mundo globalizado. Temos com isso perdido em ciência e tecnologia, o que só se constrói com estruturas sólidas, recursos adequados e, sobretudo, muita persistência. Felizmente, entre esse turbilhão de pessimismo e de divulgações inflamadas e mercenárias, alguns jovens, profissionais e instituições comprometidos com o papel social de todo empreendimento privado que, aliás, constitui princípio constitucional no Brasil nos convidam para continuar a "luta". É com tal seriedade que os estudantes e professores do curso de Comunicação Social da UNIUBE vêm trabalhando. Como educadora, percebo, com imensa satisfação, que, numa sociedade e num tempo com tamanha deturpação de valores, podemos manter a esperança no futuro, a cargo destes jovens pesquisadores, hoje, universitários. Histórias como a do saudoso professor Renato Montandon, a da querida professora de francês, a imigrante africana Rosa, e sua família, o passado e o presente da nossa Uberaba, e, agora, a rememoração da Revolução de 64 - ato inaugural de uma parte da vida brasileira que se alongou por duas décadas. Entrementes, o fato mais considerável de tudo isso é a busca, pelos nossos futuros jornalistas, da história que, para nossa sorte, manifesta-se viva em nossa Universidade, através de pessoas do gabarito de Eliana Mendonça, Tânia Mara, Ricardo e Madalena Prata. São personalidades como estas, principalmente estes dois irmãos, que nos dão forças para continuar seguindo, não obstante as vicissitudes e as dores que delas carregam. São fundações e exemplo de persistência para um jornalismo sério, consciente e comprometido com o esclarecimento da comunidade. Um labor executado sem preconceitos ou interesses exclusivamente comerciais. Parabéns, alunos e coordenadores do Jornal Revelação. Através do resgate da história, vocês contribuem para nossa constante caminhada acadêmica, na certeza de que nenhum objetivo legítimo é em vão. Professora de Direito Econômico e Direito Financeiro da Uniube
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