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Artigo faz referência a desastre ambiental em Uberaba Confira trecho que descreve caso da Ferrovia Centro Atlântica "E a cidade entrou em pânico. O descarrilamento na Ferrovia Centro Atlântica, na madrugada de 10 de junho de 2003, provocara o vazamento de 720 toneladas de produtos químicos altamente tóxicos a poucos metros da estação de captação que abastece os cerca de 260 mil habitantes de Uberaba, cidade localizada na região do Triângulo Mineiro. Trabalhadores e donas de casa colaram os ouvidos nos aparelhos de rádio, aguardando alvoroçados a inevitável notícia de envenenamento em massa. "Não beba água!", alertavam vizinhos, parentes, colegas de escola, gritando uns aos outros da janela, na rua, ao telefone: "Não beba água!" A explosão das locomotivas assustara de tal forma os proprietários rurais nas vizinhanças que pelo menos um deles, impressionado com as notícias do bombardeio no Iraque, pensou que a guerra tinha chegado a Uberaba. Isso saiu nos jornais! O prefeito Marcos Montes não se encontrava na cidade. Estava de férias na Europa. O prefeito em exercício, Odo Adão, decretou estado de calamidade pública. Isso tudo em uma cidade que, devido à falta de planejamento, já havia sofrido um duro racionamento no período de baixo volume do Rio Uberaba. Há anos ambientalistas locais criticam os sucessivos governos que persistem omissos na política de gestão estratégica das águas da cidade. Até o acidente, por exemplo, o sistema de abastecimento do município contava com apenas um ponto de captação no Rio Uberaba. Além disso, não há nenhum tipo de controle sobre a perfuração de poços em sítios particulares. Assim, devido à ausência de um plano de contenção para a estação de seca, em 2002 os reservatórios simplesmente foram miguando, minguando... até acabar em outubro. A população amargou quase duas semanas de escassez, enquanto as autoridades iam à TV culpar a natureza pela falta de chuvas! E mais tarde a situação só voltou mesmo ao normal porque choveu. O caso do acidente com o metanol reverberou nos meios de comunicação de todo o país. Nas rádios e TVs locais, edições extraordinárias alertavam incessantemente a população sobre os perigos de beber água contaminada. Entre notícias, comunicados da prefeitura e informes do centro de abastecimento, os habitantes engoliam seco, de susto a susto, afirmações do tipo "foi determinada a imediata suspensão da captação da água"; ou "a ingestão de água pode levar à cegueira irreversível"; ou "a ingestão de metanol pode levar à morte"; ou "está sendo estudada a necessidade de suspender as aulas". Mesmo os comunicados oficiais cujo objetivo é sempre acalmar a população carregavam aquela precaução de linguagem que, em momentos assim, acaba gerando todo tipo de suspeita. "A captação foi suspensa a tempo", diziam. "A água do reservatório não foi contaminada", insistiam. Será mesmo?, ressabiava-se a população. Parece que alguém ouviu, de não sei quem, que um menino, ou um velhinho, morrera intoxicado; ou teria sido um cachorro, depois de tomar banho ou beber água. Enfim, os boatos proliferavam. Já nas primeiras horas as notícias desse desastre ecológico se tornavam transtornos reais para a população. A prefeitura pedia que todos economizassem ao máximo. Quando a água das caixas reservatórias individuais acabaram, as pessoas acordaram definitivamente para a gravidade do problema. É assustador abrir a torneira e não ver sair um pingo, e não ter qualquer previsão de retorno pode ser uma semana, um mês, dois meses e ainda ter o amargo temor de que, quando voltar, a água possa estar contaminada e provocar "cegueira irreversível" na população inteira! Um terror." (André Azevedo da Fonseca. "Água de uma fonte só: a magnitude do problema a partir de uma experiência concreta". In: Formação & Informação Ambiental Jornalismo para Iniciados e Leigos)
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