Testemunha ocular

Personagens da história falam de suas memórias sobre um dos períodos mais trágicos da história do Brasil

Gilberto Lacerda
7º período de Jornalismo

Foto:Fábio Luis da Costa
Madalena Prata, Ricardo Prata, Francisco Marcos Reis e Marcos Rocha discutem o golpe militar de 1964

No dia 31 de março alunos e professores do curso de Comunicação Social se reuniram no anfiteatro da Biblioteca Central, do Campus aeroporto, para discutirem o golpe militar ocorrido no Brasil há 40 anos. Além das discussões o evento proporcionou o contato dos alunos e professores com alguns personagens marcantes, que relataram depoimentos de situações vividas durante a ditadura.

Em uma pensão acanhada, a mineirinha de Tupaciguara aguarda ansiosa por um fato iminente. O telefone toca na pensão e a amiga da estudante de 14 anos atende. A notícia não chocou ninguém, todos já esperavam por ela. Era o dia 31 de março de 1964, data do golpe militar. A garotinha de 14 anos foi as ruas para ver de perto a "invasão", dos militares. Eles desciam dos caminhões armados com fuzis, em busca de suas presas. Os caçados: políticos, jornalistas e lideres estudantis, considerados subversivos a nova ordem.

Cai o presidente João Goulart. Os militares assumem o poder. Começa a repressão. A menina de 14 anos, que na época estudava Química Industrial, era filiada ao PCB (Partido Comunista Brasileiro). Seu primeiro ato subversivo foi a realização de um abaixo assinado para legalizar o partidão.

A jovem, testemunha ocular do período militar, presenciou a mudança ideológica do processo industrial brasileiro. Antes do golpe militar a industria genuinamente brasileira crescia a passos largos. Instalado o militarismo, as portas do capital estrangeiro foram abertas, decretando a internacionalização das empresas brasileiras.

Aos 14 anos ela viu um salto gigantesco no avanço das telecomunicações. Os militares se aproveitaram disso para massificar a ideologia repressiva. Foi nesse período que a jovem estudante presenciou o nascimento da rede Globo de televisão. "Essa empresa de televisão foi o braço avançado da ditadura militar", disse 40 anos depois da revolução de 64.

Aos 15 anos, a estudante observou que o Brasil crescia na mesma proporção que se endividava. "Foi no governo militar que a divida externa cresceu de forma acelerada", lembra.

Atraso de 50 anos

Todo mundo chega atrasado, mas ninguém gosta do tal do atraso. A jovem adolescente fica aflita quando o namorado se atrasa para o encontro de todas as noites. Na redação do jornal impresso, o editor fica desesperado quando o repórter atrasa suas matérias. No Brasil o atraso representou bem mais do que a decepção de uma adolescente ou a ira de um chefe de redação.

A estudante ficava mais velha e o Brasil cada vez mais sucumbia a repressão. Ela concluiu o seu curso e foi trabalhar na Caixa Econômica Federal. Recorrendo ao diário de sua memória lembra-se do atraso político que o Brasil ficou submerso durante a ditadura militar. "A lei de diretrizes base da educação, 5692, atrelou a educação ao aparelho ideológico do estado repressor. Surgiram então matérias como Moral e Cívica, entre outras, para direcionar o pensamento dos estudantes", recorda. Ela acredita que o Brasil sucumbiu a um atraso de 50 anos por causa do regime militar.

Receita de bolo

Seis ovos, duas chícaras de fubá, duas de farinha de trigo, dois copos de leite, um copo de óleo, uma colher de fermento e uma colher de chá de erva doce. Primeiro bate-se os ovos com o óleo, em seguida mistura-se os demais ingredientes até virar uma massa pastosa e por último o fermento e com a erva doce. Essa receita não foi passada no programa de Ana Maria Braga, mas sim num dos maiores jonais de São Paulo, ocupando espaço de destaque nas páginas políticas.

A partir de 68 os militares intensificam a repressão. Fecham teatros, prendem atores. Intimidam jornalistas e cantores. Mas o pior estava por vim. No dia 13 de dezembro de 1968 o governo militar decreta o Ato Institucional 5. Nas semanas seguintes a esse ato o jornal "O Estado de S. Paulo" começa a públicar poesias de Camões, e receitas de bolo. Motivo: na redação o sensor cortava as matérias que não interessavam ao governo.

 

Mortos e desaparecidos


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