Esporte mata?

Fernando Machado
8º período de Jornalismo

Quando um livro me chama muito a atenção, antes de decidir encomendá-lo em uma livraria, costumo primeiro procurar nos sebos, nas bibliotecas, pergunto aos amigos se conhecem ou possuem a obra, enfim, faço de tudo para economizar. Pois bem, há poucas semanas, não tendo encontrado em sebos, nas bibliotecas e nem com amigos, resolvi encomendar na livraria uma obra que há tempos despertara meu interesse. Qual não foi minha surpresa ao obter, em duas livrarias, a mesma resposta: "o livro foi proibido".

Foi a série de mortes de jovens atletas durante competições esportivas, mostradas recentemente na mídia, o principal motivo para que eu procurasse Esporte Mata, do médico José Róiz, ex- redator da Revista Brasileira de Medicina e colaborador da Caros Amigos. O último caso foi o de um rapaz de 17 anos, vítima de enfarte fulminante em um jogo de futebol na China. Antes dele, Daniel Uribe, de 17 anos, morrera no campeonato peruano e o goleiro Ugarte, na primeira divisão do campeonato da Guatemala, contabilizando três mortes em dez dias. Há pouquíssimo tempo, os telejornais exibiam as cenas de um jogador de Camarões e outro, no campeonato espanhol de futebol, sofrendo ataques cardíacos fulminantes. Além disso, todo mundo conhece ou já ouviu falar de alguém que teve um troço jogando bola.

Será que esporte mata?

Se não se pode adquirir o livro nas livrarias convencionais, na internet é fácil encontrar artigos do doutor Róiz sobre a sua polêmica tese. Neles, o médico deixa clara sua oposição ao senso comum de que esporte é vida e saúde.

Segundo ele, a humanidade se divide em dois tipos de pessoas: os longevos e os não-longevos. Infelizmente, os últimos compõem a maioria e, na opinião do doutor, só deveriam fazer longas caminhadas. Ele explica: "(...)quando o indivíduo não é longevo, isto é, quando em seu organismo predomina o hormônio da supra-renal denominado glicocorticóide, cuja atividade é impedir a ação da insulina, que procura "limpar" o sangue, enviando para os tecidos o excesso de muitas substâncias, como a glicose, o ácido úrico, o colesterol, o LDL (colesterol "ruim") etc., todas essas substâncias tendem a aumentar no sangue. O aumento de LDL determina o aparecimento de placas de ateroma nas artérias e o espessamento delas, diminuindo o calibre desses vasos e, conseqüentemente, a nutrição do próprio coração, que finalmente se obstrui e constitui o infarto.

Havendo na maioria das pessoas a predominância do glicocorticóide, é natural a freqüência do aparecimento do infarto. A prática de exercícios aeróbicos, como a corrida, a natação etc., irá antecipar muito esse desfecho, daí a razão de ser permitido dizer que esporte mata." Esporte não mataria apenas essa minoria de sorte, os longevos, que só não morre depois dos oitenta se abusar da comida.

Nas escolas de educação física, surgidas depois da ginástica sueca nos anos 1930, segundo o autor do livro, criou-se uma associação dos jogos olímpicos com o desenvolvimento muscular. Assim, o grande vilão seria o professor de educação física, cego e encantado. O médico defende que, nas práticas de educação física, os alunos não são submetidos a exames complementares para saber se estão em condições de fazer qualquer tipo de exercício físico. Uma criança com problema de coluna vertebral só poderia se submeter a exercícios que possam corrigir o defeito. Uma pesquisa citada pelo médico diz que em oito por cento de quarenta mil adolescentes estudados em Belo Horizonte foi detectada incidência de escoliose a partir dos dez anos de idade.

Músculos aparentemente saudáveis, cultivados nas academias de musculação, só encurtariam a vida. "Indivíduo muito musculoso geralmente tem mais força física. Mas não vá pensar que ele é também mais sadio e possa viver mais do que você. Isso não acontecerá nunca. Pelo contrário, ele tem menos saúde e viverá menos do que o indivíduo normal. A razão disso está na sobrecarga do coração do atleta para alimentar também todo o excesso de tecido que foi criado. Ele foi feito para ter músculos de dimensões normais. A natureza jamais os faria hipertrofiados."

Em seus artigos, Róiz chega às raias da ironia: "Todos os esportes são nocivos. Em Pará de Minas, minha cidade natal, estão construindo quatro ginásios poliesportivos. Que mal fizeram a Deus os jovens de minha terra para merecer esse castigo?".

Exageros à parte, é notório que o esporte, principalmente no Brasil, é um enorme circo, um dos ópios que mais entorpecem a nação: uma copa do mundo mobiliza muito mais do que qualquer outra coisa. A crônica esportiva vive envolta em um discurso politicamente correto e, ao mesmo tempo, absurdo, onde se agrupam profetas do óbvio. Poucas informações são minimamente sérias sobre esporte, e muitas fazem pensar que, se esporte não mata, bitola.

O esporte é cercado de lendas e pieguices de todos os lados, do tipo "esporte afasta o jovem das drogas", que obscurecem a sua essência puramente lúdica, de simples divertimento. E como tudo na vida, o esporte tem, pelo menos, dois lados. Se por um lado, os dribles de Pelé o imortalizaram na história, por outro, os golpes sofridos pelo maior boxeador de todos os tempos, Mohamed Ali, afetaram seriamente o seu cérebro. Mas o que é que se sabe sobre as conseqüências a longo prazo dos esportes ditos estressantes, como o vôlei, o futebol e o basquete em um país que, como bem lembrou Róiz, têm até um ministério dos esportes? Pouca gente sabe que jogadores de alto nível, como Marcelo Negrão, precisam de drogas para suportar as dores. As propagandas da Nike não mostram, mas é fato conhecido o alto índice de uso de maconha e drogas sintéticas na liga norte-americana de basquete. No fisiculturismo, reina uma hipocrisia terrível com relação ao uso de anabolizantes, usados pela imensa maioria.

José Róiz, que vive em Belo Horizonte, afirma que a Secretaria de Esporte obrigou as livrarias a recolherem os exemplares de Esporte Mata. Seria mais interessante se, ao invés de ser "proibido" (isto é, afastado da crítica e análise do público - o que é ridículo), o livro trouxesse à tona um debate sobre temas tão polêmicos e importantes.


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