Herança da ditadura

Neste ano, comemoramos o quadragésimo aniversário do golpe militar que submeteu o país a uma ditadura e, através da brutalidade das armas, constrangeu por uma geração o desenvolvimento do livre pensamento e da cultura brasileira. Intelectuais, jornalistas e ativistas foram presos e torturados. Líderes populares tiveram seus direitos políticos cassados. Escritores, músicos e acadêmicos foram expulsos do país. Movimentos artísticos foram desmanchados. Toda a indústria cultural passou a sofrer rigorosa censura ou foi coagida a praticar o "auto-controle".

Hoje não mais convivemos com a repressão institucionalizada pelo Estado. Manifestações populares são permitidas, empresas de comunicação não são destruídas à bomba quando veiculam informações incômodas aos governantes, a polícia não têm poderes ilimitados para "prender e arrebentar" a classe média sem prestar contas à Justiça. Mas apesar disso, ainda persistem muitos resquícios da violência da ditadura no imaginário popular.

Ainda hoje, percebemos que muitas pessoas ainda temem emitir suas opiniões políticas com liberdade. Cidadãos preferem ser coniventes com as injustiças do que "comprometer-se" com uma declaração que questione as estruturas do poder. Não estamos nos referindo às leis de silêncio que imperam em comunidades cotidianamente submetidas à violência das máfias de traficantes ou à truculência impune de coronéis que matam ou mandam matar com naturalidade. Mas percebe-se que, por causa de uma reverência temerosa aos representantes do Estado, cidadãos estão sempre prontos a abaixar a cabeça diante do que ainda consideram "autoridade", mesmo quando enxergam atos explícitos de abuso de poder, tráfico de influência, falsidade ideológica ou mesmo corrupção.

Mesmo os jornalistas, profissionais cujo propósito é favorecer a circulação de informação relevante na sociedade, muitas vezes sentem-se coagidos não por pressões diretas do poder, mas por uma espécie de auto-censura secretamente internalizada. Não são incomuns os profissionais que, temendo represálias imaginárias, se auto-boicotam e deixam de cumprir seu papel fiscalizador e crítico do poder.

É evidente que todo e qualquer cidadão está sujeito às inúmeras pressões políticas e sobretudo econômicas que constrangem o pleno exercício de sua liberdade de expressão. Mas devemos desenvolver o discernimento de não somar à essas pressões reais os medos e paranóias infundados que foram fortes instrumentos de coação nos "anos de chumbo". Para conquistar a cidadania, precisamos melhorar a qualidade de nossa relação com o poder, de forma a substituir o "medo do Estado" por novas formas de interação democrática.