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União,
amor e fé constroem história de irmãs
Conheça a saga das duas irmãs que saíram do campo para enfrentar a cidade Denise
Nakamura
Era início do ano de 1954. Às quatro e meia da manhã, Dona Cândida, Seu José e seus sete filhos estavam acordando. A lua ainda estava no céu quando Dona Cândida começou a coar o café preto. Na fazenda de Ernesto de Aguiar, onde moravam, havia muitas tarefas por fazer, mas cada um já sabia seu dever do dia. O lugar se chamava Cachoeira. Maria Cândido de Jesus, a primeira filha do casal, levantou-se e viu que a irmã, Adelaide Maria da Silva, ainda estava dormindo. Resolveu deixá-la descansar mais um pouco. Assim que terminou de prender os cabelos, chamou suavemente a "negrinha", apelido carinhoso que deram a ela. Não podiam se dar ao luxo de dormir mais que os outros. A disciplina era levada muito a sério naquela casa. Assim que terminaram de se arrumar, foram à cozinha, ao encontro da mãe e do pai. Cumprimentaram-se, perceberam que estavam atrasadas, pois os irmãos já estavam todos esperando. A mãe olhava para elas meio nervosa. Elas sabiam que deveriam acordar mais cedo. Tomaram o café preto preparado por Dona Cândida e comeram broas de milho que Maria havia feito no dia anterior. A mãe também serviu rapadura com queijo, e como as broas eram poucas, fez feijão frito com ovo para quem quisesse. O pai fazia questão de que houvesse fartura na mesa. Afinal, tudo era colhido na fazenda. O dia ia ser cheio. A família
teria um trabalhador a menos, porque Seu José havia programado
uma viagem à cidade. Eram cinco léguas de distância,
percorridas a cavalo. Gastava-se um dia inteiro pra ir e voltar da cidade
mais próxima, Patrocínio. Seu José compraria algumas
coisas para a família e para o sítio. Desde novinhas trabalhavam na roça. Mesmo quando eram crianças, já ajudavam. Na época de colheita de arroz, por exemplo, ficavam espantando os pássaros, que insistiam em roubar algumas sementes. Acostumaram-se com o trabalho duro. Durante certos serviços, as irmãs passavam por alguns apuros. As cobras no meio do mato, quando tinham que levar comida para os peões, os ratos do paiol, os marimbondos no meio das plantações, sem falar de uma onça que andava assustando os moradores da redondeza. Enfim, quando não estavam no sítio da família, mudavam-se constantemente para ajudar o pai nas lavouras de café de grandes proprietários. Seu José era bom no que fazia. Sempre muito requisitado, ajudou muitos fazendeiros a construir fortuna através do café. O cafezal da fazenda de Ernesto de Aguiar seria o último formado por José. Com 18 anos, onze mais velha que a irmã, Maria sabia ler e escrever muito pouco. Não existiam escolas nas fazendas, se houvessem, não haveria tempo para estudar. Desde os oito anos, ela tinha um sonho, queria ser costureira de alta costura. Aprendeu a coser sozinha. Com esta idade ela fez sua primeira roupinha. A mãe não sabia quase nada sobre a arte. Com os poucos recursos que tinha, Maria não pôde se especializar. Sua própria mãe, apesar de ser uma pessoa muito boa e caridosa, não permitia que a filha aprendesse mais do que ela. Ao contrário do que acontece nos dias de hoje, nos quais os pais querem que os filhos estudem para melhorar de vida, naquela época muitos pais queriam que seus filhos continuassem como eles. Adelaide também queria estudar e se formar. Mas a situação não deixava as irmãs realizarem seus sonhos. Os irmãos também tinham sonhos. José, o mais velho, tocava acordeom muito bem, era quieto e gostava de fumar um cigarro de palha grosso; Geraldo tocava violão e falava muitos palavrões; Sudário tocava cavaquinho, era alegre e gostava de dançar; Francisco era artista, fazia cabos para as facas, tocava violão e não gostava de trabalhar na roça. Depois de cada jornada de trabalho, Francisco esfregava as mãos até as unhas ficarem limpinhas. Ele queria ser artista, tocar profissionalmente, mas seu pai não permitiu que ele fosse para a cidade seguir carreira; Altino o mais novo era sapeca. Trabalhava muito, tinha o melhor cavalo, tinha várias namoradas, gostava de cantar, era o mais animado. Era uma família boa. Naquele dia, quando chegasse em casa, Seu José traria uma surpresa para toda a família. Enquanto cavalgava até a cidade, seus sete filhos trabalhavam duro no sítio. À noite, o pai chegou em casa com a surpresa. Ele trouxe um rádio a pilhas para a diversão de todos. Quando era ligado, todos se colocavam a ouvir as novelas de amor que eram transmitidas pelas ondas. Depois daquele dia, Maria e Adelaide iam dormir mais tarde para escutar as novelas. Tudo tinha que ser feito no absoluto silêncio para não acordar os pais. Se eles descobrissem a travessura, as duas teriam problemas. Elas passaram noites em claro conversando sobre os romances bonitos. Riam, se divertiam com as coisas que cada uma falava. Os dias foram passando. A família diminuiu. As irmãs perderam dois irmãos. Os outros se casaram. Não tinha mais gente suficiente para trabalhar na roça. Em 1962, Seu José resolveu levar a esposa e as duas filhas para a cidade. Foram para Patrocínio. A dificuldade era muita. As duas meninas tinham estado poucas vezes na cidade. Apenas para a missa do natal e algum outro evento católico mais importante. Sempre que iam, estavam com roupas que compravam nas vezes anteriores que tinham estado na cidade ou que Maria costurava. Não ficavam embaraçadas, não sabiam o que era depressão, adolescência. Não sabiam o que era uma festa de aniversário. Apenas cantavam e davam gargalhadas. Apesar de muito ter que trabalhar e das dificuldades, eram felizes. A partir desse momento elas teriam que encarar a cidade. Os costumes eram um pouco diferentes. Elas começaram a freqüentar a escola. Entraram no segundo ano. Uma amiga da cidade ajudava com a parte de matemática. Estavam começando a realizar um de seus sonhos: estudar. Logo que terminaram o segundo ano, o pai proibiu as irmãs de continuarem os estudos. Ele achava que as meninas só queriam passear na pracinha que ficava a caminho da escola. Seu José montou uma vendinha, mas não demorou muito para ter que fechar as portas de seu negócio. Sempre muito caridoso, ele vendia as mercadorias a prazo e nunca mais recebia por elas. Muitas vezes Maria e Adelaide viram o pai dar produtos às pessoas que pediam. Depois que Seu José fechou a venda, Maria e Adelaide começaram a trabalhar. Maria costurava com uma senhora chamada Fátima. Adelaide, com apenas 15 anos de idade, cuidava dos quatro filhos da mulher, das roupas, da casa e cozinhava. Além de todo este trabalho, ela também engraxava os sapatos do patrão. Ele usava um par para cada roupa. Pelo serviço, as duas ganhavam cada uma, cinco mil réis. O contato com os irmãos era quase nenhum. As duas tinham que aprender a se virar sozinhas. As coisas que foram levadas da roça para a cidade começaram a acabar. Seu José adoeceu e ficou de cama. A mãe ajudava a cuidar do pai, mas também adoeceu, ficando os dois acamados. As irmãs tinham que dar conta de tudo: da casa, dos pais e dos remédios, que já estavam ficando muito caros para a renda da família. As duas eram muito religiosas. Elas tinham fé de que algum dia as coisas iriam melhorar. Mas, pelo contrário, foi tudo ficando mais difícil. Seu José faleceu em 1965 e deixou uma dívida na farmácia de 60 mil cruzeiros. Não havia como pagar. Nessa época, Adelaide recebeu uma proposta de emprego em São José do Rio Preto. Ela iria cuidar de uma casa com cinco crianças, sendo uma delas autista e outra tinha apenas oito meses. A dona da casa sofria de depressão, então todo o serviço era feito por Adelaide. Ela ganhava vinte e cinco mil cruzeiros. A mudança foi muito sofrida. Maria e a irmã nunca haviam se separado. Elas eram tão unidas que, na juventude, usavam roupas do mesmo tecido. Maria ficou em Patrocínio com a mãe ainda doente. Trabalhava e cuidava dela. Chorava todos os dias. Sentia saudades da "negrinha", precisava dela para ter forças para continuar lutando. Enquanto isso, Adelaide trabalhava sem descanso para mandar dinheiro para casa. Queria pagar as dívidas o mais rápido possível para ficar ao lado da irmã novamente. Trajetória a Uberaba Depois da época de adaptação, a família começou a ficar mais tranqüila. O dinheiro mandado por Adelaide não deixava faltar nada. Em alguns meses conseguiram pagar a conta da farmácia. A situação estava favorável, então elas resolveram procurar uma casa. Adelaide procurava em São José do Rio Preto e Maria, com ajuda de uma amiga que estava morando em Uberaba, procurava casa em Uberaba. Durante este período, José, um dos irmãos, faleceu. Deixou esposa e dois filhos, que foram morar com Maria e Adelaide. O pouco dinheiro que haviam economizado serviu para preparar o funeral do irmão. Depois de tanta tristeza, alugaram um barracão na rua Visconde do Rio Branco, em Uberaba. Felizes pelo reencontro, começaram a reconstruir a vida em Uberaba. Era janeiro de 1966, Dona Cândida começava a piorar. O barracão tinha dois quartos, uma cozinha, um banheiro e uma sala. Tudo muito pequenino. As cinco pessoas se arrumavam como podiam. Adelaide e Maria conseguiram emprego na casa do dono da livraria "Casa do Livro", uma das mais tradicionais livrarias da época. Negrinha cuidava da casa e Maria, passava e lavava as roupas. "Engraçado que eu via aquelas mulheres com aquelas malonas de roupa, eu pensava: Nossa Senhora, como é que dá conta? Se for pra eu passar essas malonas de roupas, eu não dou conta de jeito nenhum", lembra Maria. Ela continuava costurando, mas a procura era muito pouca. As pessoas acostumaram a comprar roupas prontas. Cada uma tinha um vestido apenas. Tiravam a peça do corpo, lavavam, esperavam secar e vestiam novamente. A patroa era muito boa e doava algumas roupas para as irmãs. Maria reformava as peças e, dessa maneira, elas foram conseguindo mais roupas e calçados. Coisas de que nunca puderam desfrutar. A vontade de estudar nunca desapareceu em nenhuma das duas. Mas o dinheiro era pouco e ainda não existiam colégios estaduais em Uberaba. Dois anos se passaram e, depois de muito sacrifício, surgiu na cidade o Colégio Minas Gerais. Adelaide sentiu uma alegria imensa ao saber que poderia voltar a estudar. Quando vestiu seu uniforme pela primeira vez, parecia que estava entrando no céu. Não acreditava que aquilo era real, para ela era um sonho. A irmã não pôde começar a estudar porque estava cuidando da mãe, o que lhe ocupava muito o tempo. Mais perdas Altino, o irmão mais novo, perdeu tudo o que tinha. Ele teve a grande desilusão de perder dois filhos. Depois disso, ficou um pouco atordoado e não conseguia mais se concentrar como antes. Sua esposa e os seis filhos foram pedir ajuda às duas. Mudaram-se para a casa delas. Agora eram doze pessoas dividindo a pequena casa. Depois de algum tempo conseguiram comprar uma casinha melhor no bairro Boa Vista. O dinheiro veio da venda do sito da mãe, onde Altino costumava trabalhar. Ainda era apertado, mas o amor e a fé uniam todos os moradores do pequeno barracão. Adelaide animava a irmã dizendo que um dia elas conseguiriam comprar uma casa bonita com cortinas na janela. Quando voltava do serviço, a pé, Maria passava em uma padaria próxima aos correios para pegar o "pão de ontem", doado pelos proprietários do comércio. Ela ia andando com o saco nas costas e pensando: "Esse pão vai dar para o lanche da noite e para amanhã de manhã". A verdade é que o pão mal alimentava a todos durante a noite. Adelaide estava realizando um de seus sonhos, terminar o colegial, mas queria ir mais longe. Queria se formar. Apesar de querer muito fazer psicologia, não podia pagar os estudos, resolveu então fazer um curso técnico de enfermagem. Não tinha dinheiro nem para pagar a matricula, e os vizinhos fizeram uma "vaquinha" para a irmã poder ingressar na Escola de Enfermagem Frei Eugênio. Depois de conseguir o dinheiro, tiveram outra dificuldade. A diretora da Escola, não queria fazer a matricula de Adelaide. Foi preciso que uma amiga pedisse que a diretora deixasse ela ingressar na Escola. Já dentro da Escola, ela era discriminada pelas colegas por não usar roupas novas. Não podia ter roupas novas porque tinha que escolher entre comprar alimento e remédio para a mãe doente e se vestir bem. Maria continuava cuidando da mãe, lavando e passando roupas para fora e tomando conta da casa. Foram oito anos de luta. A mãe faleceu em 1975. Apesar de querer muito voltar a estudar, Maria se sentia cansada. "Eu não tinha mais cabeça para estudar", lembra. Foram muitos os obstáculos, mas Adelaide, com a ajuda da irmã, conseguiu terminar o curso. Ainda no estágio, começou a trabalhar como enfermeira do Hospital São Domingos. As cunhadas e os filhos mudaram-se. As crianças estavam grandes, já trabalhavam. Cada um construiu seu caminho. As irmãs também trilharam os seus. A casa que tanto queriam foi comprada com muito esforço. Fica no Guanabara, tem dois quartos, uma cozinha grande, copa, duas salas com cortinas nas janelas, banheiro e área. Elas também compraram um rádio, que podiam escutar sempre que tivessem vontade. Maria continuou costurando e Adelaide trabalhando como enfermeira. Além disso, Adelaide aprendeu trabalhos manuais. Faz bonequinhas de pano, chocolate, sorvete. Cidade Como muitas famílias que saíram do campo para enfrentar a cidade, Maria e Adelaide sofreram muito. Mas a dor teve uma recompensa. Realizaram a maioria de seus sonhos. Inseparáveis, Maria afirma que se uma fica doente, a outra também fica. Ela diz que graças à união das duas e sua fé, conseguiram mudar de vida e, hoje, vivem muito bem. Elas ajudaram a cuidar dos sobrinhos e, quando já estavam mais tranqüilas, adotaram duas meninas, Cristina e Valdinéia. Cristina já é casada e tem dois filhos. Valdinéia, a mais nova, ainda mora com as duas mães vencedoras. |
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