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Pulsações
da Noite
4º período de Jornalismo No fim-de-semana entre 13 e 15 de março de 2004. Parece quase hoje, mas um dia esta data virará uma gravação de séculos. , tentei fazer algo: conversar com desconhecidos. Descobrir algo deles, porque queria fazer um escrito real sobre angústia. Não que isso seja tão grande mas pode ser. Angústia é confundida com um sintoma com freqüência. "Sintomas de depressão: angústia, ansiedade", aproximadamente. Minha consideração é outra: angústia é uma entidade em si, um sentimento exclusivo de todos os seres conscientes talvez até mesmo a consciência dos cães, que parecem tão idiotas que conseguem até sorrir. Nenhum outro animal consegue sorrir. Gato não ri nunca e provavelmente também não quer. Me escapa à mente um ser tão sereno e perverso quanto um felino. O que SERIA a angústia universalmente me escapa, só sei o que me é a tal. Ela se manifesta com o coração batendo com fraqueza como sentisse medo, o pensamento do desastre próximo demais. E algo que poderia se chamar de tristeza mas não é exatamente isso se encrava. Parece que toda angústia é apinhada de dúvida; será que vai dar certo, será que vou morrer, isso não é impossível, por que eu sofro tanto. Embora angústia não seja necessariamente sofrer às vezes, mas aí ela passa da angústia de nós reles mortais e torna-se um sentimento cósmico, inerente às almas superiores. Igual à solidão assim como existem vários silêncios, existem várias solidões. E a angústia não seria muito diferente. Aqui, eu gostaria de colocar algum dado oficial para dar validade a este isto, como "76% por cento das pessoas em um país X sofrem ou sofrerão de alguma forma de angústia nos próximos dois anos", da mesma forma que se vê em jornais. Achismo é uma coisa inútil na realidade das coisas certas. Mas não tenho nada embora possa-se responder à estatística com uma facada fácil, dizendo "76% das estatísticas usadas são inventadas na hora", por exemplo. Aliás, é estranho ver números comprovando isso e aquilo quem diabos sabe como esses valores são alcançados e quão precisos eles são? É fácil demais imaginar que um bando de pesquisadores simplesmente assedia um punhado de rostos mudos na rua e pergunta, dando ao corpo o valor de sua inconveniência. Depois são anotadas as perguntas, os números saem (de uma máquina ou coisa parecida?) e tasca-se isso em um lugar qualquer?. Efetivamente transformando a brincadeira em verdade queira ou não queira, porque de alguma forma toda coisa registrada torna-se canônica mesmo se for conto-do-vigário dos mais vagabundos. E isso tudo é só porque eu queria dizer que não sei como falar da angústia. Não tenho nem algo sólido para me firmar não consegui conversar afinal, tenho que admitir. Tive medo. Tirar das pessoas a informação desejada é arte, e sou menos que amador. Tenho medo das bocas abertas, do que os seres vivos falam. Tenho medo porque é impossível saber a verdade e é assustador, a voz saindo do corpo da pessoa através da mesma malícia com que se respira. E expor-se requer perder a preciosidade. Sai-se do mundo interior para abarcar no deserto da vida real e não como uma terra pós-apocalíptica, mas um deserto de idéias, de pensamento porque o silêncio é a única linguagem que permite a descoberta. O som com significado esconde e mostra o que não é. Mas o que há de se dizer na realidade esquerda, aquela das coisas que só se assume mas não vê? Isso talvez eu possa falar com uma história. Para que a história (se é que pode-se chamar isso de história) seja entendida melhor, preciso dizer que tenho insônia. O dia surge com a moleza que é característica das coisas que sempre vão acontecer e eu não durmo. E quando eu finalmente desabo, eu não descanso. Acordo mais cansado do que eu estava antes do sono. É isso que me faz olhar a rua da janela do meu quarto no meio da madrugada, todos os dias, todos os dias. E olhando a rua, avançando até as costas da cidade, vê-se coisas não diria que diferentes porque tudo já existia muito antes do primeiro ser aprender a pensar, mas coisas meio despercebidas e penosas de conceber como descobrir subitamente que nós morremos (não é que tem gente que nunca imaginou que não se vive pra sempre?). Na rua, o que há de mais importante não é pessoa, não é movimento. É a própria rua, o espaço eterno ocupado por uma rua, o pedaço de universo vestido de concreto, asfalto e cimento. À noite, a rua enudece, talvez até não sendo mais o que se foi designado a ser ela é pura. E os gatos e cães que passam hora sim hora não também são. O gato tem consciência dessa grandeza, e isso o torna superior. O cachorro provavelmente nem sabe que vive, então ele sorri. Acho que o sorriso é a forma mais sincera de ser idiota, e isso talvez seja uma variação esquisita de felicidade. Quando a madrugada começa a morrer, lá pelas quatro e meia, cinco da manhã, o espaço veste-se de novo: surgem pessoas. Todas as noites eu vejo as mulheres subindo a rua, provavelmente indo trabalhar, às vezes falando mas sempre inevitavelmente mudas de vida. Elas andam sem êxtase e quase vazias, como se o Sol fosse responsável pelo súbito avivamento da consciência. E nos passos uma espécie de valor o silêncio íntimo é um tesouro delas, as mulheres que vêm aos montes, saídas do infinito sem um destino que não o de ensimesmar-se no corpo. Eu diria que é estranho serem só bandos de um elas, mas enganei-me: agora há pouco (eram 4:40 da manhã, agora que escrevo isto são 5:30) vi um homem andando de bicicleta. E ouço vozes. O dia começou a amanhecer o desejo de demonstrar existência. Também há as mulheres que colhem lixo no meio da madrugada, mas estas são tão difíceis e profundas que seria necessário um tratado só para começar a desnudar o mistério delas, que aparecem e desaparecem no ínterim de um diapasão só, não existindo nunca mais no instante em que se fazem notar pelos olhos como possuidoras da velocidade da luz. O homem andando de bicicleta no entanto era só isso. Um homem andando de bicicleta. Talvez ele não fosse nem um homem sem a bicicleta mas só ele saberia disso. E eu sei que isso acontece todos os dias, repetidamente, sem volta. E a solidão de estar longe do sol é imensa. Imagino que todos os seres que despertam antes da luz são sós por um momento. Depois, a luz aparece, eles abrem um sorriso e nunca existiu a tristeza antes. Da mesma forma que desaparece a angústia quando as coisas dão certo. Mas se tudo o que vejo fosse a verdade do universo então isto seria informação? Acho que não. O que digo, o que falo agora é o resultado de uma falha. Eu falhei com o dever de registrar a realidade com riqueza e restou-me somente a impressão que me passa a solidão. Da mesma forma que as trabalhadoras que sobem a cidade para cumprir o dever falham com a necessidade de ser feliz para si todos os dias por um momento só, eu fracassei em existir como algo importante. São vinte para as seis da manhã agora e os ônibus que correm a cidade começaram a se exibir com seu barulho de algo que não pode esquecer. E a solidão da cidade volta ao reduto de onde só sai quando é livre, sempre à espera. O mundo está renascendo agora. |
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