Lembranças da África
Depois de morar no congo, angolana vem ao Brasil e torna-se uma "uberabense" por afeição



Rosa aos quinze anos, quando morava na República do Congo

Rosa e família: Nsungu Phillip (marido), Rosa (centro), Phillip (filho), Zola (caçula), Queto (filha), Cristiane (filha)
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Raika Julie Moisés
5 período de Jornalismo

"Tudo que fiz, realmente foi por amor". É assim que Rosa Sala Senguele Castelo, inicia sua história, explicando a decisão de deixar para trás familiares, amigos em sua terra natal e vir para o Brasil que até então era um país desconhecido.

Rosa nasceu em Angola, mas aos três anos de idade, mudou-se junto com sua família para a República Popular do Congo (antigo Zaire), onde ficou por mais de vinte e cinco anos. "Como o Congo foi colonizado pelos belgas e uma parte da Bélgica fala francês, fui alfabetizada nesta mesma língua. A Angola é um país de inspeção portuguesa e mesmo meus pais falando perfeitamente o português, não tive oportunidade de aprender o idioma. Provavelmente por falta de interesse, pois meus irmãos e eu achávamos essa língua muito engraçada, muito diferente do que sabíamos. Ríamos muito.", diz Rosa, justificando a dificuldade que ainda persiste na pronúncia do nosso idioma.

Na África, além das línguas nacionais (francês e inglês) ensinadas nas escolas, há também os dialetos, que são muito usados para se comunicar com a família e com os amigos. "Eu, como filha de imigrantes angolanos, vivi uma experiência muito diferente. Em casa falávamos um pouco de ‘ki-congo’, na rua, com os amigos, falávamos ‘linguale e kituba’. Já na faculdade de letras falava um pouco de latim. Era uma mistura tremenda!", relembra.

Na década de 80, ela retorna ao seu país de origem, pois não poderia mais continuar no Congo sem os seus pais, que já estavam em Angola. "Existia uma lei onde as pessoas que já tivessem um certo grau de instrução educacional, recém-chegadas ao país, deveriam trabalhar imediatamente. Foi muito difícil, não sabia falar a língua portuguesa. Sem falar o idioma local, como encontraria um emprego?", explica.

Desde então, toda a família se mobilizou e ninguém mais falava francês ou qualquer outro dialeto, apenas o português era permitido "aprendi na marra, todos me ajudaram, peguei a mania de fazer a tradução literal e até hoje me confundo. Vivo cometendo erros".

Lembranças de Angola

Embora tenha passado mais tempo no Congo, do que em Angola, Rosa conta que além das dificuldades com o idioma, tem fortes recordações de seu país.

"Nunca vi a guerra de perto, mas sei que ela nunca foi centralizada, espalhou-se por diferentes regiões do país. Tive a oportunidade de morar em quatro regiões diferentes. E sei bem o que a guerra fez com meu povo. Como um todo, o povo africano é muito feliz, celebra a todo tempo, Deus e a vida. A guerra tirou um pouco dessa alegria, principalmente dos angolanos", relembra.

Contrariando o pensamento de muitas pessoas, Angola é um país bonito e muito rico — "já produzimos um dos melhores cafés do mundo, ficávamos em terceiro ou quarto lugar. Tem bastante petróleo, diamante, ouro, cobre. Agora que chegou a paz, nosso povo já pode explorar estas riquezas", orgulha-se a angolana.

Atualmente, os angolanos optaram por um cessar fogo. "Hoje quando falo com meus parentes, eles dizem que as pessoas estão começando a entender o que é liberdade, a conviver com isso. A grande dificuldade, está nas minas, esses malditos resquícios de guerra. Fora isso, agora sem dúvida nenhuma, é paz!", exclama Rosa.

Quando perguntada se restou alguma mágoa em relação aos portugueses devido aos danos provocados por ele durante a guerra, Rosa é clara "sou evangélica e na bíblia fala importância de se conceder o perdão, mas não fala pra esquecermos. Eu perdoei, mas não esqueci. Não guardo ressentimento, mas também não sou indiferente à história".

A vinda para o Brasil

"Ouvi muitos protestos antes de vir para o Brasil. Muitas pessoas achavam que eu não devia largar tudo. Fiz ao contrário e não me arrependo.", conta Rosa.

Tudo começou quando o marido de Rosa, Nsung Phillip Castelo, que na época trabalhava como metalúrgico veio para o Brasil fazer um curso de aperfeiçoamento em sua área. A empresa, instalada em Itaúna-MG, precisava de quinze funcionários e ele foi um dos escolhidos. "Fiquei feliz, pois na época, ele cursava engenharia mecânica e seria muito proveitoso", acrescenta a esposa.

Aconteceu que passado o tempo do curso, Nsung não pode voltar e logo apareceu o primeiro trabalho em Uberaba. "Foi tudo muito rápido. De um curso, ele já consegui um posto na empresa, e depois, já estava se mudando para Uberaba como coordenador de uma nova equipe".

Passaram-se cinco anos e Rosa, sem ver o marido, decidiu abandonar tudo e veio para o Brasil acompanhá-lo. Para justificar sua vinda, ela explica "mais do que coragem, precisei de amor. Não fazia ficar longe do meu marido. Já tínhamos dois filhos e não era justo com eles também".

Há quase quinze anos, Rosa e sua família, reside no Brasil. Ela afirma que embora tenha enfrentado muitos obstáculos antes de sair de lá, nunca teve dúvida de que seu lugar era aqui e que o apoio dos pais foi fundamental na sua decisão. "Meus pais me prepararam muito. Disseram nem todos que questionamos à vida, têm resposta. Tudo existe em toda e qualquer parte do mundo. A vida está em todos os lugares. Vamos para aonde a ‘onda’ mandar, se ela voltar, voltamos também".

Os filhos

Rosa tem quatro filhos. Dois deles, Nsung Phillip, 20 anos e Queto Formosa Senguele Castelo, 17, são de nacionalidade angolana. "Quando saímos da Angola, Phillip tinha quatro anos e Queto, naquele mesmo dia fazia um aninho".

Chegando ao Brasil, para garantir o visto de permanência no país, era preciso que nascesse um filho brasileiro, então nasceu Cristiane Lindeza Senguele Castelo, atualmente com 15 anos.

A família, que já tinha conseguido a permanência no país, resolveu que não havia mais necessidade de ser aumentada, porém foram surpreendidas por um bebê inesperado. "Quando ia fazer ligadura de trompas, recebi a notícia que estava grávida do Zola. Foi um misto de felicidade e surpresa!".

Hoje a família comemora a miscigenação, afinal são ‘dois filhos angolanos e dois brasileirinhos, uberabenses’, acrescenta a mãe coruja.

Um fato curioso para nós, são os nomes e Rosa tem uma explicação para isso. "Na nossa cultura, todos os nomes têm uma significação. Por exemplo, Nsung, significa primogênito, Queto, esperança e Zola, o amor de Deus para conosco".

Apenas o filho mais velho Phillip, tem lembranças da terra natal. Em 2002, ele foi pra lá participar de uma competição olímpica, e viu a própria terra que ele antes, não tinha quase nenhuma lembrança.

As dificuldades

Embora Rosa conhecesse alguns brasileiros que moravam em Angola, isso não foi o suficiente para que ela tivesse uma mínima visão sobre o país. "Quando se chega em lugar desconhecido, por mais que você tenha estudo, por mais que te falem sobre este lugar, a sua vivência é totalmente diferente. É única".

É natural que todo começo seja difícil, mas para a família angolana, os problemas eram ainda maiores.

Rosa, que já era formada em Psicopedagogia, havia iniciado o curso superior de economia em Luanda, capital da Angola e acreditava que chegando aqui poderia dar continuidade a ele. "Aconteceu exatamente o contrário, comecei tudo de novo. Desde as séries primárias. Não sei porque desconsideraram minha sabedoria, ela é como a de qualquer outra pessoa", desabafa.

Movida pela vontade de crescer e disposta enfrentar mais este desafio, Rosa matriculou-se no SESU, fez supletivo e em pouco tempo, terminou ensino médio e superior. "A orientadora do processo, não me dava muita credibilidade. Pensava que por eu não falar bem o português, talvez nem fosse alfabetizada. Mas acho que se enganou!", brinca.

Outro fato que dificulta a vida da família, é a desigualdade social. "Parece que quem trabalha mais, ganha menos. Não sei como está meu país hoje, mas quando saímos de lá, íamos a todos os lugares mais distantes de avião. Aqui, desde que chegamos, trabalhamos muito e ainda não conseguimos visitar à nossa terra", desabafa Rosa.

O Brasil hoje

Mesmo diante das dificuldades encontradas fora de sua terra natal, Rosa não desanima. "Quando cheguei aqui, tinha todas as oportunidades de não ser nada, mas optei pelo contrário. Não queria carregar a imagem de negra, pobre e imigrante".

Quando pergunto se há a intenção de retornar para Angola, ela diz que por enquanto não. "Estou interligada aos meus filhos, ao meu marido. Por agora, aqui está sendo melhor para nós. Estamos nos estabilizando. Começando a crescer".

O próximo passo, segundo ela, que atualmente é professora de francês, é iniciar e concluir um curso universitário e já avisou que não vai poupar trabalho para alcançar este objetivo.

Apesar de todos os problemas brasileiros, a angolana tem uma boa visão do país. "O povo brasileiro é muito acolhedor. Diferente dos europeus, que são frios e tantas vezes mau-humorados. Vejo uma semelhança com os angolanos, talvez por termos uma história parecida de anos de dominação e por sermos colonizados pelo mesmo povo, os portugueses".

Rosa salienta a liberdade do brasileiro que chama muito sua atenção. "Aqui vocês são muito livres, donos de suas vidas. Vejo muitas pessoas reclamando disso e daquilo, mas se chegarem em outro lugar, vão querer voltar correndo".

Estávamos encerrando nossa conversa, quando Rosa, emocionada, me pediu para fazer um comentário final: "Comecei dizendo que tudo que fiz foi por amor. Amor ao meu marido e aos meus filhos. Amor também por mim mesma. Agora, já tenho um novo amor: o Brasil. Esse país soube acolher muito bem minha família. Na Angola, costumamos dizer que cada família é uma nação, então é no Brasil que pode se ter uma boa visão dos vários povos do mundo!".