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Quem
tem medo de Clarice Lispector
4 ° período de Jornalismo Ela não era simples. Tampouco sua linguagem era aquela conhecida dos homens, dita para fora e na qual cada palavra possui um significado no dicionário. Sua comunicação era a do silêncio: cada intervalo de não-som em seus escritos é provavelmente mais valioso que tudo o que ela chegou a dizer em sua vida. E sua obra estranha, articulada sempre entre fronteiras delicadas do simbolismo e da vivência, mudou a história da literatura brasileira sem ela mesma nunca viver o suficiente para entender a razão. Nestes e em muitos outros paradigmas se situa Clarice Lispector, a ucraniana que logo no começo de sua vida atravessou o oceano para desembarcar no Brasil e, a partir daí, começar sua trajetória através das palavras e de seu mistério. A escrita de Clarice possui uma característica muito particular em direção a seus leitores: a radicalidade. Ou se apaixona, ou vai-se embora. Em seus textos, não existe espaço para um meio-termo. Atualmente muito estudada mas muito pouco compreendida, a mística clariceana passa longe (e muito possivelmente ultrapassa) dos termos da literatura acadêmica, da alegoria social e da busca por justiça, penetrando sutilmente as camadas mais íntimas da alma humana, explorando com rara sensibilidade e sabedoria cada aspecto daquilo que é ser uma pessoa; afinal, por que a vida? O que é a morte? Como é a felicidade? O que sinto, que diferença faz? Não há resposta para estas perguntas eternas no texto de Clarice mas a partir delas, a autora cria seu laço íntimo com o leitor. Ela torna-se próxima do leitor porque sente as mesmas dúvidas, faz as mesmas perguntas e derrama as sensações não particularmente suas, mas do mundo à sua volta para tentar encontrar a essência do universo. Elemento raríssimo na literatura brasileira e divisora de águas para a literatura feminina brasileira junto a Cecília Meirelles, como foi apontado pela professora de Letras Ivanilda Barbosa, Clarice recusa-se a procurar culpados ou denunciar mazelas exteriores, considerando a miséria e aleluia íntimas do ser humano a raiz de tudo o que ele passa. Sua obra, portanto, é infinitamente profunda e singular, apoiada no estilo absolutamente único que ela sempre possuiu (e somente sua forma de se expressar já é o tema de inúmeros estudos literários, que centram-se na estranha gramática clariceana). É nesta base que Clarice desenvolve sua veia íntima e conquista um espaço interior na vida de sua fiel e fascinada legião de leitores. Louca e fantástica A riqueza da escrita de Clarice atravessa com força os veios de quem a lê: como dito antes, ou ama-se sua escrita ou odeia-se. No entanto, tanto aqueles que odeiam quanto os que amam lembram-se dela claramente. A professora da Uniube Cássia Marinho considera: "Ela é louca, louca. E é justamente por isso que ela é fantástica". Leitora antiga de Clarice, ela é fascinada pelas descrições misteriosas e a sensibilidade feminina da autora. O que vem adicionar outro aspecto curioso: Clarice Lispector é uma autora reverenciada pelas feministas, devido ao contato íntimo que a escritora desvela diante da mulher. No entanto, Clarice jamais poderia ser considerada feminista: sua sensibilidade e graça (mesmo que freqüentemente amargas e melancólicas) contrastam muito com a quase brutalidade do movimento feminista, que, para abrir caminho diante do machismo, precisou agir como um trator, manifestando-se sem sutileza. Clarice é, sim, feminina, e sua conexão com a mulher é especialmente única por este aspecto. Embora isto não impeça leitores do outro sexo a se apaixonar por ela como o estudante de Letras do 4o Ano na Uniube Giovanni de Paula Oliveira, que está realizando um projeto acadêmico independente sobre Clarice. Quando o assunto é a escritora russa naturalizada brasileira um mês antes de completar dezoito anos seu rosto assume uma quase luminosidade, os olhos inegavelmente transbordando em fascínio. Ele conta que seu primeiro contato com Clarice deu-se ainda na adolescência, quando assistiu a um especial da Globo comemorando o aniversário de 80 anos de Dercy Gonçalves. O especial era uma adaptação do conto "Feliz Aniversário", contido no livro "Laços de Família" da autora. Interessado, o então garoto decidiu buscar a obra para descobrir de onde vinha aquela história. Não conseguiu ler sequer a metade do conto. Assim, por muito tempo, ele manteve-se incólume à força de Clarice, até que, anos depois, uma amiga sua que atualmente mora em Portugal tentou convencê-lo a ler Clarice novamente, dando-lhe outra chance o que, surpreendentemente, aconteceu (se trata de um caso bastante raro de "conversão tardia", por assim dizer). Claro, essa amiga era fascinada pela escritora também. Mas Giovanni conta uma particularidade dessa moça diante de Clarice: ela só lia as obras da russa quando estava apaixonada. Sua mente e sua alma abriam-se para os mistérios da autora somente nesse espaço de sensações que a permitiam viver leve e profunda para si. Ele também relata sobre as variadas facetas da profundidade de Clarice; não só os assuntos que ela abordava eram densos, mas sua própria sintaxe era toda particular justificando mais além sua velha frase "Os outros escritores cosem pra fora; eu coso pra dentro". Dentro da sintaxe clariceana, a construção de frases ganha outro significado: ela não gera frases com começo, meio e fim, através do uso convencional de pontuação e construções gramaticais, mas brinca, transforma as regras. Pontos finais não significam o fim de uma frase, tampouco interrogações e exclamações. Frases são interrompidas subitamente e sua significância não é retornada senão muito mais tarde, dando espaço a outros pensamentos. Variadas expressões do espírito manifestam-se em uma frase só graças a uma interrogação ou exclamação acompanhadas de vírgula, interminando o período. E ela é capaz de juntar duas frases aparentemente sem relação no significado íntimo de seu dicionário, gerando assim estranhamento e fascínio. Em um conto, no qual Clarice relata suas desventuras com uma macaca comprada na feira, no final do texto um de seus filhos fala "Mãe. Você é igualzinha à Elisete (a macaca)". Clarice responde: "Eu também gosto de você". Aparentemente sem sentido, a associação ganha força através da união de significado íntimo que Clarice confere à idéia, já que, no texto, ela se afeiçoa à macaca e dá a ela uma importância humana. Assim, o filho dizer que a mãe parecia a macaca torna-se uma forma silenciosa e sutil de dizer "Eu gosto de você". Coisas como essa são muito comuns na literatura de Clarice, e manifestam-se das formas mais variadas, construindo o mundo infinito de suas personagens e pensamentos de maneira única para cada leitor. Imoral Tão única que nem mesmo o amor pela escritora impede leituras cáusticas sobre ela. O professor de Português Décio Bragança considera Clarice uma escritora imoral. Suas palavras: "Em um país de Terceiro Mundo, com fome e miséria, ela (Clarice) se fixar em temas existenciais da morte, da vida, do amor, questionando filosoficamente a existência humana, pra que existo, se eu nasci, por que eu devo morrer, o que é a morte, o que que é destino, eu acho uma sacanagem. Ela é sacana por causa disso, por isso ela é imoral. Ela devia falar de problemas sociais, com temas de primeira necessidade. Ela mexe com temas de quintas, sextas, sétimas e décimas necessidades". Esta visão particularmente mexe com a própria essência do que Clarice escreve: a abordagem de temas sociais nunca foi um de seus temas mais caros sua escrita sempre foi muito centrada na classe média e média-alta, na qual Clarice se encontrava em vida, e sua incursão pela miséria social em "A Hora da Estrela" deixa claro o quase desprezo da autora por estes temas: sua escrita aborda, de forma até determinista e geralmente amarga embora poética e encantadora a miséria humana, existencial, tornando-a ainda mais solitária dentro do panteão de escritores brasileiros (a maioria tem como a sociedade e os problemas sociais como algo muito próximo, tomando-os como tema quase de vida). Isso sem contar as pessoas que simplesmente detestam sua escrita, considerando-a absolutamente louca e incapaz de fazer sentido. Compreensível e até louvável isto tudo porque a escrita de Clarice É louca e sua arte não tem como objetivo ser compreendida, mas vivida e sentida além da pele. O mergulho em Clarice é inevitavelmente tão profundo que, uma vez imersa em sua dialética e filosofia, a pessoa que a lê não pode mais voltar: o leitor abandona o Abismo da Ordem, como Clarice chama a realidade sólida, para descobrir um mundo à esquerda, onde tudo tem significados incompreensíveis e novos; toda vivência ganha o aspecto de redescoberta, florescimento. Renda-se, como eu me rendi Finalmente, mesmo dentro de estudos acadêmicos, a mística da escritora consegue tocar e mudar para sempre a vida das pessoas. Como aconteceu com Claire Varin, escritora canadense que teve seu primeiro contato com Clarice em 1979, quando ainda estudava Letras na Universidade de Montreal, lendo a tradução francesa de "A Paixão Segundo G.H.". Após a leitura, Claire encontrou-se tão fascinada por Clarice que somente ler suas obras não era suficiente: ela iria aprender o idioma português, e ir para o Brasil, que abrigou a escritora. Ela foi ao Brasil em 1983, e sua estada seria de somente dois meses. Sua paixão pela escritora e a riqueza dos achados que encontrara, no entanto, fizeram-na passar 16 meses no país. No Brasil, ela se instalou na mesma área onde Clarice vivia (o Leme, no Rio de Janeiro), em uma locação que permitia a ela a mesma vista do mar. Ela entrevistou a família de Clarice: o filho Paulo Gurgel Valente, e logo depois, as irmãs Elisa Lispector e Tânia Kaufmann, que a indicaram amigos de Clarice como Nélida Piñon, Otto de Lara Resende, Rubem Braga e Lygia Fagundes Telles assim como a secretária pessoal de Clarice, Olga Borelli. Todos estes providenciaram riquíssimas informações sobre a escritora, com as quais Claire geriu e defendeu, em 1986, uma tese de doutorado sobre os escritos de Clarice. Anos mais tarde, reescrita e reformulada, a tese tornou-se um livro chamado "Línguas de Fogo", no qual Claire Varin estabelece um delicado laço de intimidade com Clarice e sua obra, em uma comunicação de almas surpreendente e sensível. Um momento todo especial para Claire em sua pesquisa, no entanto, foi quando pesquisava os manuscritos da russa na Casa de Rui Barbosa, em 1983: entre anotações e livros, ela encontrou um envelope solitário no qual estava escrita a palavra "cabelos". A escritora canadense abriu o envelope e encontrou ali uma mecha de cabelos de Clarice, levemente encaracolada. Emocionada, ela se lembra do acontecido como o mais próximo contato físico que ela chegou a ter com Clarice. Pessoa assombrosa e misteriosa dentro e fora de seus relatos, Clarice Lispector é uma personificação daquilo de mais inexplicável dentro da existência, e sua obra é sempre fresca, destruidora de indiferenças. Até hoje, resiste sua frase mais famosa, e o seu convite para a vida em sua profundidade indescritível: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no desconhecido, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender: a vida ultrapassa qualquer entendimento".
Fontes sobre "Línguas de Fogo": Jornal Estado de São Paulo e site Jornal da Poesia. |
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