As cotas ocultas nas universidades públicas
André
Coimbra
O tema
cotas na educação não é novo.
Quem
se dispuser a ler os relatórios das universidades mantidas com
recursos públicos chamadas impropriamente de públicas
e de gratuitas (públicas todas as escolas são; a gratuidade
é relativa pois o Governo, o Estado, não tem um vintém
que não seja tirado de alguém) constatará que nos
cursos, ditos "nobres", os estudantes que neles ingressam
são os que possuem renda.
Os
dados, de abrangência nacional, foram publicados para Revista
Conjuntura Econômica, de fevereiro de 1998.
a) 70%
dos candidatos aprovados, no vestibular do início de 1998, nas
universidades, mantidas com recursos públicos, cursaram o ensino
médio (2º grau) em caríssimos colégios particulares;
b)
os pais desses alunos investem em quantias que vão de U$$50 mil
a U$$100 mil durante o ensino fundamental e médio, até
os filhos ingressarem na universidade, onde nada pagarão;
c)
nenhum tostão é pago por esses estudantes em cursos de
medicina, engenharia e odontologia. Nesses cursos, a predominância
dos estudantes, provenientes dos colégios mais caros, é
absoluta. Esses cursos ,nas particulares, em torno U$$52560, numa conceituada
escola de medicina, U$$70.000, caso se forme em engenharia, ou U$$60.000,
se preferirem na odontologia;
d)
75% das verbas do MEC são destinadas ao ensino superior;
e)
a camada mais rica da população abocanha 24% do gasto
público com o processo educativo. A camada pobre fica com 18%.
Os dados
demonstram que os "que não têm" bancam a carreira
dos "que têm"!!! É um injusto e oculto processo
de transferência de renda!
A
prioridade (significa aquilo que está primeiro) é invertida.A
educação básica recebe recursos na proporção
de 1 por 3. Em cada 4 reais gastos, 3 reais vão para o ensino
superior e 1 para o ensino fundamental e médio.
Num
país de milhões de analfabetos e de crianças sem-escola,
os recursos públicos são privilégio dos que possuem
mais renda.
O fantástico
subsídio não é contestado por aquele que são
diretamente preferidos.
Não
há exercício de cidadania, civil e consistente, no sentido
de reverter e restabelecer a social prioridade. Nem há necessidade
de suprimir a gratuidade relativa. A solução talvez seja
simples: quem tem paga; quem não tem não paga.
Os meios,
instrumentos e procedimentos, para depurar os que podem pagar, surgirão
da "tecnologia" do fisco e da criatividade dos criadores de
tributos (do tipo C.P.M.F.).
E
os beneficiários têm que ser responsáveis por alguma
modalidade de retribuição social.
Em
Uberaba, o relatório da Faculdade de Medicina, naquela época,
apresenta dados que confirmam o quadro nacional do ensino superior gratuito.
- 91,4%
dos ingressantes fizeram o 2º grau em escolas particulares; somente
5,7% estudaram em escolas públicas e estaduais e 1% em escolas
municipais;
-
79,1% freqüentaram cursinho pré-vestibular;
-
45,7% são filhos de pais com curso superior completo, e 34,3%
são filhos de mães com curso superior completo.
-
51,4% provêm de famílias com renda mensal acima de 15 salários
mínimos (38,1% são de famílias com renda mensal
maior que 20 salários mínimos).
-
93,3% não trabalham;
-
44,7% usam computadores, seja para trabalhos escolares ou lazer.
Constata-se
que ajustes nas contas do Estado não se limitam , como é
usual, em despejar derramas nos cidadãos.
Restabelecer
prioridades e cortar privilégios fazem justiça social
eficaz.
De
fato, cotas sócio-econômicas, de acesso e ensino gratuito,
para a classe de cidadãos que podem pagar, são reservadas,
oculta e sutilmente, na universidade pública.
André
Coimbra é Professor e Gerente de RH da UNIUBE.